FUTURO DO PRETÉRITO
* Trilha sonora: O vento - Los Hermanos
Durante minha vida inteira eu preferi abrir muitas portas, e dar só uma espiadinha em cada uma delas.
- Oi, tudo bem aí?
- Com certeza!
- Então “até mais!”. Um dia eu volto pra ver como estão as coisas...
- A gente se vê!
Era mais fácil. Era como estar na piscina com tudo o que eu preciso ao meu redor, só que no raso.
Nessa hora, tudo é sorriso e alegria. Tudo é fácil, simples e parece verdadeiro. A música é boa e os gostos também. Sempre há alguém pra te oferecer mais um copo...
O problema é quando você de repente olha pra frente, e vê que há toda uma piscina para desbravar. Só que tem um problema, lá na frente é fundo e você não sabe nadar.
É pesado se jogar no fundo correndo o risco de se afogar. E aí, pra onde ir?
Cadê a coragem nessas horas?
É tudo tão estável aqui no rasinho ...
O tempo escorria pelos meus dedos e eu nunca voltava.
Não voltava não por falta de vontade, mas por que eu tinha outras portas para abrir, outros vagões para entrar...
Ia ficando sempre para depois da aula, pro fim de semana, pro fim do semestre, pra dezembro ...
“A gente se vê” sempre teve gosto de futuro do pretérito.
Muita coisa ficou em stand by por um tempo. Algumas ficaram pra sempre.
Não sei se hoje em dia eu trataria essa situação com cuidados especiais. O que venho fazendo é entrar nas cabines que mais me apetecem e passar um tempo por lá. De boa. De buenas. Tomando um chá e comendo algumas bolachas. Debatendo ás vezes o conceito de “felicidade sintética”. Só ás vezes. O resto do tempo eu me concentro em ouvir. Assim eu vou ficando com sede de “muito mais”. Tendo mais certeza dos significados das palavras. A gente tem o célebre costume de não dar muito valor pra isso. Uma hora o tempo acaba te cobrando o significado de algumas palavras. E eu, mulecão de tudo, observando de dentro, descobri o significado de algumas delas a força. Ainda bem que descobri antes de cair de fronte com uma cobrança maior.
A palavra “saudade” é exclusiva do português.
É uma palavra considerada sem equivalência exata noutras línguas e que exprime uma multiplicidade de sentimentos contraditórios. Basicamente como um doce-amargo, agridoce.
Infindável e inefável,
efêmero e fulgás.
Nessa selva, a gente brinca, aprende e se suja.
A nossa sorte é ter roupas limpas para amanhã.
*Obs. Post dedicado ao Cido pelo mar de referências.
Obrigado pela onipresença de seu eu-lírico.
Fica muito mais fácil aprender a nadar com alguém te puxando pro fundo.
Nesse bailar de vagões, é sempre bom saber onde haverá chá fresco amanhã.
E nessa dança dos dias, fica mais fácil delimitar quem é para sempre e quem é foto na parede.