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Primeira

Mais uma vez eu compunha aquele azulejo sonolento, que todos fazemos cada vez mais questão de assentar nas paredes do metrô de São Paulo. Uma concentração no místico vazio formado pelas nossas questões não solucionadas, e no qual mergulhamos quando em solidão coletiva, aos bocejos e óculos escuros. Praticamente atrasado, véspera de feriado. A única voz que se houve é do condutor, e até seu sotaque vira piada em happy hours descolados.
Daí chega uma família, estilo clássico. Filhos, vó, brinquedo, tudo. O pai organiza todos em lugares com sua onisciência inata; o menino lê os nomes das estações e pela primeira vez entende pelo menos como se chama o lugar onde está sem ter de aborrecer aos mais velhos, numa pequena faísca atrevida de independência. A menina sentada confortavelmente no colo da mãe brinca com um dinossauro de borracha, e a avó deita o olhar cheio de orgulho sobre sua cria, que assume o papel de ser doce e proteção em ambiente hostil.
E me sinto estranhamente culpado por ser azulejo frio e estático. Aquela culpa de não impedir xingamento de gordinho, uma pontada de leve em nossa vegetal consciência de parte de um todo, de um grupo, de uma sociedade. Ora, a cidade é feita de pessoas, por mais que a cada dia nos convençamos e nos conveçam do contrário (qualquer que ele seja, o contrário disso). E como um atacante desengonçado que toma a frente do marcador, ajo impulsionado pela pontada. Levanto os óculos, sorrio e brinco com o dinossauro. Eles são do interior, como eu, mas estão de passagem só... e olha, essa cidade é muito louca, imagina que ficamos meia hora no Tietê procurando o sentido certo do metrô, mas é bom pras crianças conhecerem.
Sim é bom. E fiz com que a primeira frase que as crianças ouviram pronunciada por São Paulo tenha sido "bom dia", e não "fica esperto". Essa última elas vão ouvir, rápido, muitas vezes. Ao verem que quando todos são ninguém pra todos, cada um desses ninguéns forma essa massa, e ela é cinza como o céu que tampa isso tudo. Cinza como os trens que vão passar, cinza como as esquinas do café quente e da cerveja fria, cinza como a nossa cara atrasada, por culpa dela, São Paulo. E cinza como o amor compulsório que um dia por ela terão.

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el viajero I

me dá a dezessete
tá de dia, vou janela
com o centavo que me reste
vou subir mirando a serra

tá tarde, tô cansado
desamarra, tira a pedra
furou, tamo atrasado
no corredor estico as pernas

joelho nas costas de alguém
água não tem
nem espelho

me diga se tá tudo bem
me diz que vem
me liga

cansa viver nesse aqui?
que é por aí
não sento...

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quem fui que me enganou?

a placa que não vi
a esquina não dobrei
não foi porque não quis
eu juro que tentei

de pé junto, juro
se hoje é tão escuro
já foi de tudo o mais claro

e eu vejo o olho daquele
apontou "não tenha medo
ao perigo, seu desprezo"

lembro seu dedo, desaponto

e eu vejo o olho daquele
que aos poucos reconheço
lembro sua face, e quando aproximo
esmago a testa no espelho

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uma

o ruído da sandália
me desgasto, me atrapalho
o arrasto, passo falho
só faz se usa saia

e sorri à toa
e chora tão só
nó no pescoço
apagado em pó
mas é tarde, e tá boa

e o caroço não sai
dois tapas nas costas
te dei mas não sai
silêncio é resposta

da luz que não sai
das ruas tão tortas
das memórias mortas
(diz que não, mas se importa)
que só tem se usa saia

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sem farol

Triste_copy

o cara tava tão triste que o seu blues virou quinta sinfonia.

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o não, sem som

Pulinho_copy

ele desenha
ela rabisca
ele lamenta
ela só ri
 
ela faz venha
depois faz fica
mastiga menta
ficam assim
 
e ele pensa
e deixa seu corpo
esquece que o rosto
continua aqui
 
e ele pensa
enche seu copo
asperge com gosto
a sombra de si
 
mas está longe (e calmo)
dela a um palmo (que é um monte)
e assim não começa a história carmim

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sobre a fuga

só que nem pet no tietê
agonizo à calma do paraná
e vou descendo, rodando sem ser

descendo, rodando, gastando caneta
não tem sol, o céu escondido
pobreza, guardar em tinta preta
o que devia ser dito no ouvido

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